quarta-feira, 31 de julho de 2013

Medo do escuro

Se há coisa que tenho é medo do escuro. Até na minha própria casa, quando a meio da noite tenho que me levantar para ir acalmar os meus filhos que estão a chorar. Mas aqui no hospital tive mesmo que combater esta parvoíce. Não tive outra hipótese.

O hospital onde estou internada é de 1800 e tal (não, não é uma metáfora, é mesmo esta data), portanto é o cenário perfeito para um filme de terror. À noite desligam todas as luzes da nossa ala, e no corredor ficam apenas 2 luzes de presença minúsculas instaladas nos rodapés, mais as luzes das casas de banho dos homens e mulheres (que é no fim do corredor, pois claro!).

Duas das noites que passei em claro, fui-me sentar nas cadeirinhas à porta da casa de banho das senhoras para conseguir ler, e passar o tempo. Agora imaginem, uma das minhas coleguinhas de quarto apanhou um susto comigo, porque quando virou a esquina do corredor para o wc, estava lá a múmia da Raquel de perna cruzada a ler um livro.

Para castigo, aconteceu-me o mesmo. A única diferença é que era um homem, de pijama, com ar acabrunhado, sentado lá no dito banquinho, à porta da casa de banho das mulheres (quando o wc dos homens é o penúltimo no corredor). Morri de medo. Mas tinha mesmo que ir à casa de banho, e entretanto ouvi os passos do homem a afastar-se.

Acho que depois desta, estou pronta para ser guarda nocturno!

terça-feira, 30 de julho de 2013

Flash Mob Papal

Fui sou eu que achei que a visita do Papa Francisco ao Brasil virou arraial? Que a excitação de o receber tomou proporções ridículas? Segui minimamente os dias da sua visita, e aquilo mais parecia a abertura dos Jogos Olímpicos. E o culminar de tanta loucura desmedida? O Flash Mob Papal. Eu estava incrédula, boquiaberta a ver as imagens na televisão. Nem o Ricardo Araújo Pereira conseguia lembrar-se de um sketch tão bom.

Agora comparem a nossa recepcção ao Papa Bento XVI no Terreiro do Paço, e a do Brasil ao Papa Francisco...acho que a única coisa em comum foi o facto de os papas estarem os dois de branco...

Mudar o nome do blog

Assim como assim eu nunca mais saio daqui, nem tenho uma data prevista (que é sempre animador), estou a pensar em mudar o nome deste blog para "Conta-me uma história no hospital". O que é que acham?

E pronto assumo de uma vez por todas a temática da minha nova casa. Estou até a pensar entrar no look-hospital, aproveito os saldos e compro um robe (já com borboto e tudo), uma camisa de noite rosa-velho daquelas até aos pés, um chinelo daqueles felpudos com bordados pirosos. E depois é só andar desgrenhada.

Aceitam-se sugestões de nomes para o blog.

Hoje estou nesta animação toda.

45 kg

Já ouvimos falar das dietas dos 30 dias, dos 2 dias, da tia Roquette, da alcachofra eu sei lá... Mas se querem mesmo emagrecer é fazer a dieta do hospital. Não falha.

Neste fim-de-semana que estive em casa, ganhei coragem e subi à balança, estou a pesar 45kg! Até me vieram as lágrimas aos olhos, não de alegria, mas de tristeza. Não me lembro alguma vez de ter pesado tão pouco nos últimos 20 anos. Para conseguirem visualizar os números melhor, meço 1,57cm, e costumo pesar 48kg. O meu novo peso é uma violência.

Para quem quer experimentar a minha dieta, aqui do hospital, aqui vão todas as informações:

Pequeno-almoço: 1 carcaça com doce de pêssego + 1 copo de leite meio-gordo sem lactose.
Meio da manhã: 1 pêssego em calda + 2 tostas médias sem nada.
Almoço: 1 sopa de legumes triturada + bife grande grelhado + arroz ou massa + 1 cenoura cozida (só como carnes brancas). 1 peça de fruta (pêssego em calda ou pêra cozida ou maça cozida ou banana)
Lanche: igual ao pequeno-almoço.
Jantar: sempre peixe branco, cozido ou grelhado, e o resto é igual ao almoço.
Ceia: 1 copo de leite sem lactose, 4 tostas médias com doce de pêssego.

Nota: pff variem no doce, o meu dietista é que deve ter uma pancada forte com o pêssego.

Nota 2: como já devem ter reparado, nada de sobremesas, e a bebida que me dão varia entre água e sumo de maça. Também não há café para ninguém. Não há vícios para ninguém.

Nota 3: as quantidades são de um adulto normal.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

Riscos nos relógios

Comprei há quase um ano atrás, na Swatch, uma bisnaga que prometia tirar os riscos dos relógios, de seu nome Poliwatch. Agora que não tenho nada que fazer, experimentei, e funciona mesmo!

Para quem risca os relógios todos como eu, aqui está uma boa dica. A bisnaga custa cerca de 5€, é pequenina (mais ou menos do tamanho de um frasco de verniz) mas dá para limpar muitos swatchs, já que a quantidade de creme utilizada, também é reduzida. Ainda não sei se funciona noutras marcas, mas lá chegaremos.


Novas companheiras de quarto

Pois é, as minhas velhotas tem todas baixa, e eu vou ficando para semente.
A velhota que ressonava que se fartava, teve alta.
A velhota que estava sempre com frio, teve alta.
A velhota que só bebe líquidos teve alta no fim-de-semana, mas tem só que vir cá ao hospital passar mais uma noite, por prevenção, e depois vai à sua vidinha.

E eu aqui.

As novas personagens no meu quarto são: mais outra velhota surda (quando tento comunicar com esta, tenho que falar tão alto, que era capaz de jurar que as paredes estremecem) e a cereja no topo do bolo... uma cigana da minha idade. E portanto, já estão a imaginar a confusão, o barulho, o arraial de entra e sai, num quarto que já de si é pequeno, e que está cheio de camas e pacientes e visitas de outros pacientes. É a loucura absoluta.

Fujo a sete pés deste caos. Vou sempre para a sala das visitas. É impossível descansar a cabeça ali.

Das várias vezes que tive que ir ao quarto buscar qualquer coisa, uma das vezes a paciente cigana estava a dormir na cama, e estavam 3 mulheres, cada uma sentada numa cadeira, à roda da cama (como se estivessem à frente da lareira) de braços cruzados. Todas em silêncio.
Sinistro.

E eu, na minha ingenuidade, toda contente, a achar que ia ser tranquilo, porque a cigana é do Alentejo, e portanto a família estaria muito longe para a visitar. Hoje, até veio uma prima de Braga, sim leram bem, só para visitá-la.

E depois a ironia de outra velhota que está no nosso quarto, que tem 6 filhos, repito 6, já para não contabilizar netos e afins... E praticamente só recebe visitas ao domingo, muitas delas, claramente em sacrifício. A senhora, coitada, justifica-os dizendo que os filhos moram muito longe (tipo Sintra ?!) e que têm vidas muito ocupadas, têm que trabalhar. Os nossos velhotes são muito mal tratados. É uma tristeza.

Saí à rua

Desde quarta-feira que estava a ficar bastante deprimida por não estar com os meus filhos e com o F. E como é que isso se reflectiu? Deitava-me às 23h e acordava às 2 da manhã completamente desperta, ficava a ler, a passear na net para passar o tempo, isto até às 6 e tal da manhã, na maior, sem ponta de sono. E não dormia mais o resto do dia... Uma das médicas que me acompanha, alertada pelas enfermeiras deixou-me ir este sábado e domingo a casa. Saía do hospital às 07h00 da manhã (quando recebia a minha primeira medicação intravenosa) e depois tinha que regressar às 18h00 (para receber a segunda dose e ficar para dormir).

Feita à introdução, imaginam a minha alegria ao sair do hospital?

Saí de madrugada do hospital, e em passo acelerado, parecia que ia fugir à polícia, apanhei o táxi para casa, e fui na maior alegria a apreciar a paisagem da A5. Cheguei a casa e estava tudo a dormir. Fui espreitar a Benedita ao berço, depois fui ao meu quarto e estava o Nico a dormir na cama com o F.
Perfeito.
Mudei de roupa, enfiei-me na cama, e fiquei ali a vê-los dormir, a fazer festinhas no cabelo do Nico, a dar-lhe beijinhos e um abracinho. E quando o Nico acordou eu estava mesmo ao lado... o ar incrédulo é difícil de descrever.
E para o "compensar" dei-lhe um presente do tamanho do mundo, uma garagem toda xpto.

O resto do dia é fácil de adivinhar... As minhas crias estiveram o tempo todo em cima de mim, atrás de mim. Cola pura.

O fim-de-semana passou a correr, e agora é arranjar forças para ficar mais uma semana sem os meus filhos, enfiada nesta clausura.

domingo, 28 de julho de 2013

Bastidores do hospital

Calculei mal a roupa que deveria ter levado para o hospital. Pedi ao F. que me trouxesse as t-shirts que encontrasse lá por casa. Só encontrou uma, com a Mona Lisa a fumar um charro. Really?

Encomendei-lhe um verniz, as únicas informações que dei foram (um verniz rosa, marca sephora). Apareceu-me todo orgulhoso no hospital com 4 frascos de verniz da marca que tinha pedido, um rosa, um verde, um pérola e um cinzento. Por 4 vernizes pagou 5€. E ainda dizem que os homens não sabem fazer compras.

O F. tem sido o verdadeiro pombo-correio, á noitinha envio-lhe uma mensagem com os meus "discos pedidos" e a mercadoria não desilude (tirando a t-shirt da Gioconda), lá vem a acetona, o esfoliante, os cotonetes, a tesourinha... Carrega-me o telemóvel, vai ao quiosque buscar revistas que não lembram ao careca. Sai do trabalho e vem ter comigo ao hospital, fica por cá até as 21h00, depois vai buscar a criançada aos sogros, trata deles, outras vezes já estão tratados, e tenta curtir um bocado a criançada. E assim corre a nossa vida... E eu aqui no hospital, feita múmia. Estou a escrever este post e está a doer-me a alma.

A dieta do pêssego

Cada paciente no internamento de gastro tem uma dieta especifica, ninguém no meu quarto come a mesma coisa. A mim, calhou-me na rifa o pêssego. E nem os meus médicos que me acompanham, percebem muito bem porquê. O meu dietista (atenção não confundir com nutricionista), é um porreiraço, magrinho que só ele, deve ter mais ou menos a minha idade, trata-me por tu, e faz-me comer pêssegos como se não houvesse amanhã.

Como um pêssego em calda a meio da manha. Ao almoço como um pêssego em calda á sobremesa, ao lanche barro as minhas tostas com doce de pêssego ou marmelada de pêssego ( que nem sabia que existia) e assim vai a minha dieta. Tudo o resto é o clássico: peixe cozido e amigos, sopa sem graça nenhuma (espessa como eu não gosto), bife grelhado, frango grelhado, gelatina (que dou sempre ao F. porque para mim só gelatina royal), arroz, cenoura cozida. Eu que já estava enorme, vou sair daqui a parecer uma folha de papel.

Um grande bem haja para todas as mulheres que estão a fazer dieta.

Olá, eu sou a Raquel, tenho 34 anos, e nao como um único doce desde sexta-feira, dia 19 de Julho... acho que vou entrar para o Guiness.

sábado, 27 de julho de 2013

As companheiras de quarto

Quando estava a dar a entrada do meu processo no hospital, reparei que na dita sala estava um quadro duplo com a informação sobre os pacientes que estavam internados dividido por: quarto das mulheres e o quarto dos homens. E no quarto das mulheres a idade média rondava entre os 70 e os 80 anos. Salvo uma paciente, eu com 34. Pânico.

E se quando cheguei fiquei sozinha num quarto com 4 camas. Logo, logo uma paciente teve alta e passei a minha primeira noite, e as restantes, num quarto com mais 5 companheiras.

Temos a senhora que ressona alto e bom som, e eu não consigo dormir (só de tampões nos ouvidos), temos a outra que dorme vestida de robe, mais manta e está sempre com frio e a pedir para fechar as janelas (o quarto é um verdadeiro forno, não imaginam), temos a outra que raramente sai da cama e está de olhos abertos a olhar para o tecto (tem 6 filhos mas recebe muito poucas visitas) e, depois a 4a senhora que sonha com sardinha assada, e salada de polvo, e peixinhos da horta e coisas que tais (porque só tem ingerido iogurtes, batidos e chás no último mês da sua vida), e por fim a senhora surda, que não põe o aparelho no ouvido para não o perder (porque foi muito caro) e é também a fashion victim do pedaço, com camisas de noite todas para a frentex com girafas e robes orientais. E depois temos a "jovem" que sou eu, que desfila pelo hospital de boxers/ calções e t-shirts e havaianas (e que se recusa a usar robe porque é deprimente), tem pilhas de leitura na mesinha de cabeceira, e ajuda as velhotas a subir a cama, a puxar o estore, a apanhar coisas do chão, a aumentar o volume da tv...

Entre sestas, leituras e tv ainda falamos dos filhos, dos programas histéricos da tv portuguesa, das doenças (pois claro), vemos com muita atenção os noticiários da 13h e das 20h, debatemos tudo sobre o bebé real e tudo o que for o tema do momento. E assim passam os meus dias...

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O português

Desculpem lá qualquer coisinha mas ando a escrever os últimos posts num iPad e, ainda não percebi muito bem a cena dos acentos. Umas vezes dá para por outras nem por isso. É preciso é ter calma.

Sono, onde estás tu?

Sempre tive a sorte de dormir lindamente, assim que me deitava adormecia ferrada e só acordava no dia seguinte. Até que chegou a pandemia......