quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Férias leva-as o vento...

No dia a seguir a ter alta do hospital, pirei-me para o norte, para a casa de família do F.
Estava de rastos.

Mas vá-se lá saber porquê achei que deveria estar com boa cara. Branca, esquálida, com umas olheiras profundas, e  para ajudar à festa, a cara inchada (eu parecia o Sponge Bob, uma grande cabeça com umas perninhas lá em baixo) por estar a tomar cortisona.

E só me apercebi realmente do meu estado, quando vi as fotos que o F. tinha tirado. Apanhei um valente susto!

Um tio do F. que fez o favor de espalhar pela localidade toda que eu tinha estado internada (amei!) quando me cruzava com alguém, e me perguntavam se eu já me sentia melhor, e eu "dizia que estava óptima" achava realmente que estava a enganar quem?

O resumo destas férias é um bocadinho diferente das outras: muita praia, muito bom tempo, feirar muito, os petiscos ficaram para outras núpcias (estive que estar a fazer dieta), a Benedita aprendeu a andar, os tios e a avó tomaram conta da criançada e deu para descansar e fazer sestas, muito poucas caminhadas (estava com zero de energia), e zero de televisão e internet (que é das coisas que mais gosto destas férias). Em Tróia tive a visita de 2 amigas + um sobrinho que ficaram acampadas lá em casa. Foi muito giro.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Nunca mais

Alguns hábitos alimentares que tenho vão ter que mudar para sempre. Nunca mais posso comer um bife mal passado, sushi, uma bola de berlim na praia (cremes e molhos em temperaturas duvidosas), tudo o que tenha lactose (inclui leite, gelados, queijos), uma salada fora de casa, presunto ou fiambre é para fugir, fritos só em casa, acabadinhos de fritar em óleo novo. Refeições com dias no frigorifico nem pensar. Tudo isto é uma verdadeira bacteriolândia, da qual tenho de fugir a 7 pés! Refrigerantes com gás proibido.

Posso comer com muita moderação legumes e chocolate. Por exemplo.

Por aqui, o nosso frigorifico e dispensa mudaram do dia para a noite... leite 0% sem lactose, iogurtes de soja ou 0% lactose, manteiga de soja, queijo de barrar sem lactose, os legumes são sempre lavados com vinagre...

E digo-vos que não notam a diferença de um gelado de soja de um normal. Podem fazer o ice-cream challenge cá por casa!

Ah! Posso comer gomas!

Tudo o resto posso comer, sempre com moderação.
Moderação é mesmo a palavra de ordem.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Está tudo óptimo

Depois de mais de 6 meses em modo avestruz, com a minha doença, se calhar isto vai lá com Eno? Se calhar isto passa com o tempo. Se calhar é melhor ir ao médico. Ai tenho tanta coisa para fazer, vou adiar a consulta. Exames. Análises. O meu médico não tem tomates (desculpem lá, mas é mesmo isto) para me dizer o que tenho. Quem o diz é a médica que me fez mais um exame. Assim, sem mais nem menos. Toma lá uma doença crónica. Sim, para sempre. Esta não passa com compridos, nem com o tempo. Não passa.
E depois na consulta o meu médico com os exames todos à frente e nicles. Tive que ser eu a dizer. E ele confirmou. Do melhor.

Fiquei triste. Fiquei com raiva. Que injusto! Logo eu (porque eu?) que sempre tive hábitos de vida saudável, não fumo, não bebo álcool, não bebo café, tenho uma alimentação saudável, faço desporto regularmente... Depois, paciência. Assumi a coisa. Não há volta a dar. Não vou dramatizar porque não tenho saco nem faz o meu género.

Agora, peço a todos os ouvintes que por favor parem de me perguntar com um tom de voz como se eu tivesse 80 anos, e à beira da morte: "Como tens passado?".
Please. Por favor, parem. Perguntem o "então tudo bem do costume?" porque eu não tenho o espírito português "de gostar de falar de doenças" e isto é crónico... portanto não me vão fazer esta pergunta até ao resto dos meus dias, pois não?

Sou igualzinha a vocês, a única diferença é que de manhã quando lavo os dentes, também tomo um comprimido. De resto é tudo igualzinho.

Obrigada.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Últimas histórias do hospital

A velhota-louca de que vos falei no último post, ainda nos brindou a todas as pacientes com um striptease no quarto, na noite em que chegou. Assim, sem mais nem menos, decidiu tirar a camisa de noite do hospital, e basicamente não tinha nada de nada por baixo. Valeu-me a minha localização geográfica, não cheguei a ver nada, porque a cigana entrou logo em acção e carregou na campainha de emergência para chamar uma enfermeira. Lá acalmaram/ vestiram a fera.

Adivinhem onde é que trabalha a ex-namorada do F.?
Pois claro, no hospital onde eu estava internada. Ok, eu sei que não estão juntos há mais de 15 anos, que ela também é casada e mãe de filhos (by the way, com um dos melhores amigos do F.) mas não deixa de ser a falecida. Que disse que me ia visitar quando regressasse de férias. Eu enferma, a receber a visita fresca, fofa e bronzeada da ex. Confesso que não me estava a apetecer, e o destino teve piedade de mim, e a visita da anestesista, não sei porquê, acabou por não acontecer.

Uma prima do F. assim que soube que eu estava internada, apareceu de surpresa no hospital e passou a tarde comigo, uma grande amiga minha já estava escalonada para esse dia. E ficámos as 3 em amena cavaqueira. As conversas foram do mais inocente que possam imaginar... Descobrimos que partilhávamos a mesma pediatra, que a prima trabalha literalmente ao virar da esquina do emprego do F.

E no dia seguinte a prima mandou presentes para mim via F. Um leque (porque eu tive a tarde toda a queixar-me do calor), uma lanterna (para emprestar à cigana que tinha ficado sem tlm, e via a febre às tantas da madrugada ligando a fluorescente, sublinho fluorescente, e eu não conseguia dormir) e ainda um bolo caseirinho feito pela própria para oferecer às enfermeiras e auxiliares (para as engraxar, para me tratarem bem). As minhas visitas foram mesmo TODAS espectaculares.

Senti-me África!


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Velhotas-report FINAL

Tinha mesmo que escrever este post. Por respeito às minhas queridas leitoras que me acompanharam nesta luta! Cá vai.

No domingo, quando regressei ao hospital, e a fazer contas à vida, que é como quem diz, a pensar qual seria a minha capacidade de resistência para mais uns dias de clausura, tentei entrar na rotina. Era muito duro despedir-me das visitas. A partir dali estava sozinha, me, mysellf and I.

Depois de me instalar nos aposentos, ver os emails, ler umas revistas fresquinhas e debater o fim-de-semana com as minhas coleguinhas de quarto reparei que ainda estava uma cama vazia. E comentei em voz alta: "Então ainda não temos uma nova inquilina?"

Bem dito, bem feito. Pouco tempo depois, entrava-nos pelo quarto adentro uma paciente de maca, empurrada por uma dupla de bombeiros.

A coisa parecia que ia ser pacífica, até a enfermeira começar a fazer perguntas à nova paciente.
A velhota vinha acelerada, surda como às portas (a mais surda de todas!) e falava aos BERROS. MESMO. E no fim de cada frase dava uma gargalhada sinistra.

A enfermeira perguntava-lhe o que é que lhe doía, e ela dizia: "ONDE É QUE EU MORO? MORO EM ALGÉS". Uma conversa de surdos pegada. TUDO AOS BERROS. A enfermeira viu-se grega para fazer a triagem. E Lisboa inteira ficou a saber o que é que a velhota tinha.

O problema é que a senhora não queria ficar deitada. A velhota estava excitadíssima. Tiveram que puxar as grades da cama para cima, para controlar a galinha desvairada.

De meia, em meia hora berrava: "TIREM-ME DAQUI. EU QUERO IR MIJAR".
E se os auxiliares não chegavam naquele segundo, a velhota ficava a berrar a mesma coisa, vezes sem fim: "EU QUERO IR MIJAR, EU QUERO IR MIJAR".

Tive que sair do quarto, para ter o meu momento de gargalhada. Não estava a aguentar, era demasiado surreal. Não estava a conseguir parar de rir. Também eu já estava maluquinha!

Não me perguntem como, mas consegui dormir a noite quase toda, mas acordei com uma tremenda dor de cabeça! As minhas coleguinhas de quarto disseram que a velhota não sossegou a noite toda. Eu não dei por nada.

Antes da minha alta, a velhota da gritaria ainda contou uma história de fazer chorar as pedras da calçada, à auxiliar que lhe ajudou a dar banho logo pela manhã. Em síntese, que tinha 13 filhos e que ninguém lhe ligava nenhuma.

Poucos minutos depois, afinal já só eram 12... Esta velha era uma mentirosa de primeira, fingia que chorava, estava literalmente a gozar com as pessoas que a rodeavam. Um descanso, portanto, para quem está internado.

Estou cheia de pena das minhas ex-coleguinhas de quarto...

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Capacidade de engolir

Aqui no hospital, na ala dos exames de gastro, numa das paredes do corredor está uma vitrina super antiga com os mais variados objectos que foram extraídos do corpo humano, tudo etiquetado onde foi encontrado. Por exemplo: chave com etiqueta a dizer "esófago". E as coisas que as pessoas engolem...

A lista: 2 pilhas, chaves, moedas (muitos escudos), bocados de dentadura (blargh!), brindes de bolo rei, um tubo de plástico do tamanho do mundo... Fiquei perplexa.

Em alguns casos parece que foi acidental... Mas noutros não era mais fácil tomar uns comprimidos?

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Tive alta!

Tive alta. E portanto este blog vai de férias! Entre hoje e amanhã (sim, porque já tinha feito as malas no fim de semana) piro-me para Viana do Castelo e só regresso a Lisboa no dia 15 de Agosto.
Nem acredito. Finalmente de férias.

domingo, 4 de agosto de 2013

Prazeres estúpidos

Quando se sai à rua, depois de muito tempo internada, certos prazeres ganham uma dimensão parva. A alegria de:

- Apanhar vento na cara.
- Pôr os óculos de sol.
- Entrar em casa às 8 da manhã e ter o meu filho a dar um salto da cama, e correr para me dar um abraço, com um sorriso de orelha a orelha.
- Ver pessoas na rua que não estão vestidas com pijama, robe, chinelos. Tristes.
- O cheiro da nossa casa, a nossa cama, a nossa banheira, o nosso sofá, a minha caneca do pequeno-almoço.

Este fim-de-semana fui a casa, e pela primeira vez, desde dia 19 de Julho, dormi em casa de sábado para domingo. E foi tão bom. Excepcionalmente, o Francisco dormiu na nossa cama. Mimo. Muito mimo, porque esta criança está desnorteada. Ela e eu.

Hoje regressei à base. E já não aguento mais.

A minha mãe quer me pôr a chorar...

Quando me apanha sozinha, ou quando de repente ninguém está a ouvir diz-me (com a lágrima no canto do olho):

"Dava tudo para ficar com a tua doença. Eu já sou velha, bem que podia ficar com a tua doença".

E o que é que se responde a isto?

Tenho que aparvalhar. Digo-lhe que vou ver na minha agenda. Digo-lhe que há coisas piores, para não pensar no assunto.

Depois deste internamento, viro pedra.

Cenário idílico

A nora a tratar da papelada do internamento da sogra.

Conheço muito boa gente que ia amar estar com aquela canetinha na mão.

sábado, 3 de agosto de 2013

Velhotas-Report 2

Hoje sou oficialmente a paciente mais antiga no quarto das mulheres.

A velhota fashion/surda que não usava o aparelho para o ouvido (para não o perder), e que entrou no mesmo dia que eu, teve alta hoje.

Estou a pensar em começar a organizar uma comissão de boas-vindas para as novas pacientes, com direito a bandeirolas, banda e a chave do cacifo. Assim como assim, assumo o papel da presidenta.

Substituições:

Afinal a senhora entubada não chegou a entrar no nosso quarto, não sei se morreu, se teve alta. Por aqui não está.

Entrou uma avózinha-alentejana que fala pelos cotovelos, e que se farta de chorar ao telefone sempre que alguém da família telefona. É de partir o coração.

E entrou uma senhora quase com 50 anos, com um ar super doente, com uma tendência para a depressão, e que só fala em crepes. E que só fala da doença... e é ultra pessimista. M-e-d-o. Fujo de pessoas assim.

Elogio ao hospital

As enfermeiras, e os enfermeiros deste hospital, são ultra-incansáveis, disponíveis, simpáticos, atenciosos e com muita paciência para nos aturarem. Não tenho elogios suficientes para esta equipa. São fantásticos. Vê-se que gostam do que fazem, que nasceram para isto. Vocação pura. Imaginam o quanto isto ajuda a um paciente internado?

Já os médicos o caso muda de figura. O currículo extenso não chega. Não somos números, somos pessoas (eu sei que é cliché, mas infelizmente ainda com muita razão). Sou seguida por uma equipa de 3 médicos, e o mais cromo e supra-sumo é o que tem mais falta de tacto, o segundo médico também é um cromo mas gosta de falar com os pacientes, e de explicar as coisas como elas são,sem pressas e com toda a disponibilidade que tem, e por fim a terceira médica que deve ser da minha idade, é uma simpatia, super atenciosa, competente e vem visitar-me todos os dias. É a minha psicóloga e serviço.

E por fim, as auxiliares, que são as que fazem o "dirty work", que é como quem diz: fazer as camas, tratar das arrastadeiras, dar banho às velhotas, levar os pacientes em cadeiras de rodas para os exames... E aqui a fauna e a flora muda de figura: temos senhoras extremamente mal-educadas, mal-formadas, posso dizer histéricas? (pronto já disse) e depois temos outras senhoras que são simplesmente um doce, que cumprimentam cada paciente, fingem bem que sabem os nossos nomes.

E estas são as personagens que povoam actualmente a minha vida.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Não é suposto os pais ficarem doentes

Para além da angústia de estar internada e de não encontrar um tratamento que resulte comigo. Vamos já saltar esta parte. O que me angustia mesmo é o facto de não conseguir tomar conta dos meus filhos. Sinto-me uma inútil.

A Benedita está literalmente a um passo de começar andar, e eu não vou ver.

O Francisco pergunta cada vez mais por mim, e já não se fica com a explicação "a mãe está a trabalhar" agora, entre outras coisas, perguntou ao pai: "A casa não é também da mãe?".

O F. está metido em sarilhos, e eu estou a ver que o Francisco começa a ficar traumatizado.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Novo tratamento

Comecei um novo tratamento ontem. Tudo a torcer por mim sff.
Também podem rezar, acender velas, fazer figas, you name it...

Velhotas-Report

Esta é a nova rúbrica do blog,para que fiquem a par de todas as expulsões do quarto mais famoso do país!

A velhota surda número 2, já teve alta. Nem chegou a aquecer o lugar, passou cá 2 noites e pirou-se.
A velhota dos 6 filhos vai ter alta hoje, a única filha que realmente lhe liga, e visita, vem buscá-la hoje.

Substituições:

A minha nova velhinha do lado é tão magra, tão magra, que tem que usar creme para aliviar as dores da extrema magreza. É super simpática.

A velhota que vai entrar hoje no quarto, está toda entubada, com um ar às portas da morte. Faz mesmo muita impressão. Estou mesmo a ver que a senhora vai morrer aqui no quarto. E vai ser como aquele filme dos anos 80, "O fim de semana com o morto" com a pequena diferença que não me vai dar para rir... E mais uma que tem alta!